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10 de nov. de 2010

Em defesa das nossas espécies

Brasil é o principal vitorioso em acordo assinado na Conferência da ONU sobre Biodiversidade, em Nagoya, no Japão

Juliana Marques

Enquanto professores e alunos voltavam para casa após a premiação na 5ª Olimpíada Brasileira de Saúde e Meio Ambiente, biólogos, diplomatas e especialistas discutiam o futuro da preservação de espécies de todo o mundo na COP-10, a 10ª Conferência das Partes da Convenção da ONU sobre a Biodiversidade na cidade de Nagoya, no Japão. Foram 18 mil participantes que negociaram o maior pacto ambiental desde o Protocolo de Kyoto, em 1997. Eles decidiram que, a partir de agora, todas as nações obedecerão a um protocolo internacional para explorarem os recursos genéticos de outros países, ou seja, toda a fauna e flora pertencente a cada ecossistema.

As novas diretrizes ficaram conhecidas como Acesso e Benefício Compartilhado (Access and Benefit-Sharing - ABS) de recursos genéticos, e determinam que caso países desejem explorar a diversidade natural (incluindo plantas, animais ou micro-organismos) em territórios alheios, terão de pedir autorização para as nações donas dos recursos.

O protocolo determina que caso a exploração seja autorizada e os estudos resultarem em novos produtos (tais como remédios ou cosméticos), todos os lucros terão de ser repartidos entre o país que os desenvolveu, e o país de origem do recurso. Estão incluídos ainda os direitos de comunidades como tribos indígenas, que já utilizam muitos dos recursos genéticos tradicionalmente. Elas também terão direito a parte do lucro proveniente da exploração e comercialização.

Os ambientalistas e pesquisadores comemoraram o novo acordo, e acreditam que este será um grande passo para preservação mundial da biodiversidade. Além disso, as novas medidas internacionais dificultarão a prática da biopirataria e tráfico de animais, muito comum nos ecossistemas brasileiros, como a Floresta Amazônica, a Mata Atlântica e o Cerrado.


Procurado por estrangeiros por seu alto valor nutricional e energético, o açaí (Euterpe oleracea) 
é um dos principais alvos da biopirataria. Empresas no mundo inteiro fabricam bebidas, alimentos e 
cosméticos com base na fruta, que é rica em proteínas, lipídios e fibras. (Crédito: Bruno Peck)


Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira afirmou que o Brasil sai vitorioso da COP-10: "É realmente uma vitória. Estou certa que temos um novo arranjo para a conservação biológica. Para nós é bom, finalmente avançamos". No entanto, ela alerta que será preciso muito mais que legislações para proteger de forma efetiva a biodiversidade: “É necessário entender que precisamos de conciliação. O acordo não inclui substâncias já exploradas, e também é importante preservá-las”, afirmou Teixeira no fim da conferência.

O sapo kampô (Phyllomedusa bicolor) é encontrado na Floresta Amazônica e possui uma secreção cutânea 
com propriedades medicinais utilizadas por tribos indígenas. Cientistas americanos, europeus e 
japoneses já realizaram estudos e patentearam substâncias capazes de combater derrame cerebral, 
Mal de Parkinson e até mesmo alguns tipos de câncer (Crédito: Luiz Carlos Turci/Universidade Federal do Acre)

Segundo o professor Thomas Lewinsohn, especialista em biodiversidade da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o mais importante agora é conhecer e mapear nossas espécies. “Até hoje foram catalogadas 180 mil espécies do Brasil. Mas esta é apenas 10% da variedade que ainda temos que conhecer, estimada em 1,8 milhão de seres vivos. Aqui as pessoas não relacionam a perda da biodiversidade às suas próprias sobrevivências, mas o desaparecimento das espécies pode ter prejuízos ainda maiores que as mudanças climáticas”, contou o pesquisador, em entrevista ao suplemento Razão Social, do Jornal O Globo. 

Encontro entre natureza e arte

Artista cria esculturas submarinas para preservar a vida de recifes de corais nos oceanos

Juliana Marques

Seja ao vivo, em fotografias, ou em filmes, os recifes de corais imperam belezas naturais dos oceanos em todo o mundo. Além da imponência, os recifes são sociedades delicadas e essenciais para a vida nos mares. Entretanto, o aumento da temperatura das águas, as mudanças nas correntes marítimas, tempestades e atividades humanas, como pesca e turismo, causam graves danos a estas verdadeiras florestas aquáticas. Foi pensando nesta ameaça que o artista inglês Jason deCaires Taylor decidiu criar um museu submarino, feito com esculturas de concreto que servem como apoio para o crescimento de recifes de corais.

Quando coloca as esculturas no mar, Taylor estimula surgimento de recifes artificiais, e diminui o impacto ambiental ao afastar turistas de regiões sensíveis, onde os corais estão ameaçados. Por meio dos objetos, feitos com cimento composto de sais marinhos, areia e cerâmica, Taylor entrelaça conceitos de arte moderna com a preservação dos oceanos. As figuras humanas são confeccionadas com diferentes expressões faciais e gestos, e simulam interações com o ambiente.

De acordo com o artista, as áreas do museu subaquático são cuidadosamente estudadas para que os novos objetos não causem nenhum dano à vida marinha natural das regiões. Além disso, Taylor escolhe para sua galeria águas claras e rasas, justamente para facilitar o acesso ao público, e busca parcerias para facilitar o surgimento dos seres vivos nas galerias. “Trabalho com biólogos marinhos que ajudam a identificar as espécies de algas e esponjas mais propensas a se desenvolverem nas esculturas. Posteriormente, elas passam a atrair animais como lagostas e peixes”, conta.

Após instalar as esculturas no fundo do mar, Taylor prepara as esculturas para receber variadas espécies de corais. 
Na imagem a instalação “A jardineira da esperança”. (Crédito: Jason Taylor/Divulgação)

Mergulho em um museu submarino

Este ano, Taylor está preparando cerca de 400 esculturas para o Museu Subaquático de Arte (MUSA), em Cancún, no México. Segundo o artista, o Parque Marinho Nacional de Cancún recebe mais de 750 mil turistas por ano, que acabam, sem querer, causando danos aos sensíveis recifes da região. “O museu é chance para desviar a atenção dos turistas, que deixam de mergulhar nos recifes naturais, permitindo que eles se regenerem e desenvolvam. As esculturas são colocadas em um local que foi muito castigado com furacões, e agora, aos poucos, os corais vão sendo atraídos pelo concreto, tal como acontece em embarcações naufragadas”, explica.

Em dezembro deste ano, Taylor inaugura no MUSA a exposição Evolução Silenciosa, que oferecerá aos visitantes a oportunidade de mesclar arte com conhecimentos sobre a preservação ambiental. Com o objetivo de estimular o turismo sustentável, o museu oferecerá ainda cursos e palestras sobre a importância dos recifes para o equilíbrio dos ecossistemas nos oceanos.


Para criar as esculturas, Taylor fotografa pessoas nas ruas, e imagina como
 seriam suas vidas em um mundo submarino. (Crédito: Jason Taylor/Divulgação)


Taylor, que é filho de um inglês com uma Guianesa, passou a infância nadando sob os recifes da Malásia, país que despertou seu interesse pela preservação da vida marinha. Antes de ser escultor, ele viveu ao redor do mundo atuando como instrutor de mergulho e fotógrafo. Em 2006, Taylor inaugurou sua primeira exposição submarina na ilha Granada, no Caribe

Acesse o site do artista, e acompanhe o crescimento dos corais nas esculturas:
www.underwatersculpture.com/

Minúscula ameaça

Você sabia que um mosquito pequenino chamado maruim é capaz de transmitir uma doença chamada Febre de Oropouche?


Juliana Marques

Os sintomas são comuns: febre alta, dor de cabeça, dores musculares e cansaço. Esta doença pode ser facilmente diagnosticada como dengue, muito conhecida por todos os brasileiros. Porém, um exame mais cuidadoso pode determinar que na verdade esta enfermidade é a Febre de Oropouche, transmitida pelo diminuto maruim, integrante de uma família cientificamente conhecida como Ceratopogonidae. Também conhecido como mosquito pólvora ou mosquito do mangue, ele é encontrado em todo o mundo, e seu tamanho não ultrapassa dois milímetros. 

Curiosamente, apenas a espécie Culicoides paraensis é a transmissora da Febre de Oropouche. A doença é causada pelo vírus Oro, e foi registrada pela primeira vez no Brasil em Belém do Pará, em 1961. A partir dos anos 80, outros surtos epidêmicos se sucederam atingindo diversos estados da região amazônica brasileira e, o mais recente foi em 2009 no Amapá. No entanto, grande parte da população ainda desconhece a febre. E como a enfermidade, até agora, não tem avançado a estágios mais graves, felizmente não foram registrados casos fatais.


A fêmea do maruim Culicoides paraensis, transmissora da Febre de Oropouche só tem um milímetro, 
mas sua picada é agressiva. (Crédito: Jerry Butler)

Segundo a bióloga e pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz (IOC) Maria Luiza Felippe Bauer, apesar do tamanho, o maruim tem uma picada bastante incômoda. Ela afirma que, dentre outros, o bananal é um habitat favorito da espécie porque ela se reproduz nos cepos e troncos que permanecem no solo após a colheita da banana: “os sulcos dos cepos, além da umidade própria, ficam encharcados pela chuva, e viram um criadouro ideal para a multiplicação destes maruins”. Felippe-Bauer explica que uma das maneiras de diminuir a incidência do mosquito, e por consequência a doença, é a limpeza cuidadosa nas plantações, com a retirada dos pedaços de troncos que são deixados no bananal. Além disso, um manejo diferenciado do bananal pode - e deve - ser avaliado. Ela esclarece ainda, que são necessários estudos a respeito dos criadouros em ambientes modificados pelo homem como áreas de monocultura da banana, para que sejam propostos métodos eficientes de combate a esses pequenos insetos.


A plantação de bananeira é um habitat favorito para a reprodução dos pequenos maruins 
transmissores da Febre de Oropouche. (Crédito: Maria Luiza Felippe Bauer)


Como se prevenir?
Como o maruim é um inseto minúsculo, Felippe-Bauer afirma que telas nas janelas não bloqueiam sua entrada e que para evitá-lo, pouco adianta usar repelentes tradicionais: “A estratégia para não ser picado é evitar exposições nos horários de picos dos insetos, justamente quando eles saem para se alimentar, pela manhã entre 7h e 9h, e à tarde, entre 16h e 18h. Além disso, vestir calças e blusas de manga comprida, e utilizar um óleo corporal na pele exposta ajuda a evitar a picada”, explica.

Na imagem é possível observar os sulcos úmidos dos cepos de bananeiras, um ambiente ideal para 
o crescimento das larvas dos maruins. (Crédito: Maria Luiza Bauer)

A pesquisadora conta ainda que com as mudanças climáticas podem ocorrer mudanças nas infestações: “Esta espécie apresenta ampla distribuição nas Américas, ocorrendo desde os Estados Unidos até o Uruguai. Com o aumento das temperaturas, os maruins encontram novas áreas favoráveis a sua multificação, servindo como vetores para a transmissão da Febre de Oropouche. Por isso, a possibilidade do surgimento de novas epidemias não deve ser descartada”.