Documentário “Lixo Extraordinário” mostra como catadores transformam seu trabalho em obra de arte
Juliana Marques
No cartaz do filme, a imagem feita com material reciclado coletado pelo próprio Sebastião Carlos dos Santos, o Tião, que trabalha no lixão desde os 11 anos de idade
(Foto: Vik Muniz)
Foram três anos de filmagens, três diretores diferentes, no Jardim Gramacho - maior lixão da América Latina - em Duque de Caxias, Rio de Janeiro. O cenário, que já foi exibido no documentário “Estamira” (2005), ganha nova vida no filme “Lixo Extraordinário”, que retrata o trabalho do artista brasileiro Vik Muniz, radicado nos Estados Unidos.
Com a ideia inicial de fotografar e pintar catadores de lixo, Muniz viu que algo muito maior poderia surgir após suas primeiras entrevistas e experiências em Gramacho. “A beleza do lixo está em ele ser tão negativo. É algo que descartamos, não utilizamos mais e não queremos mais ver por perto. No entanto, o interessante de se trabalhar artisticamente com os resíduos é que eles passam a ser vistos novamente, sendo que com bons olhos”, explica o artista.
Sob esta perspectiva, Muniz decidiu dar um novo papel aos catadores. Foi assim que eles tiveram a chance de também serem artistas e puderam confeccionara suas próprias imagens, feitas com o lixo que retiravam de Gramacho. Ao fim, o trabalho foi fotografado pelo artista e leiloados na Inglaterra. Toda a renda do leilão foi revertida para a Associação de Catadores do Jardim Gramacho, que agora investe em novas tecnologias para ampliar a reciclagem dos resíduos que chegam ao lixão. “O que eu mais queria era mudar a vida de um grupo de pessoas, justamente com o mesmo material que eles manuseiam diariamente, o lixo”, afirmou Muniz.
Previsto para ser inativado em 2012, o Jardim Gramacho funciona há 30 anos. Nas favelas ao seu redor, é possível encontrar os catadores que trabalham diariamente para desenterrar materiais reciclados
(Foto: Vik Muniz/Divulgação)
O principal objetivo do artista e dos diretores do filme foi retratar a vida dos catadores e mostrar como a arte pôde mudar a realidade em que vivem. Para o representante da Associação de Catadores do Aterro de Gramacho, Sebastião Carlos dos Santos, o Tião, fazer parte do filme lhe redeu novas ideias e oportunidades: “O documentário abre portas para políticas públicas de incentivo à reciclagem. O Brasil tem, e muita, mão de obra capacitada para reciclar o lixo, mas faltam muitos incentivos a nível municipal. No filme, o trabalho dos catadores é valorizado e isso muda pontos de vista sociais, políticos e econômicos”, conta Tião, um dos principais personagens do documentário.
A partir da fotografia, Vik Muniz orientou os catadores a reproduzirem suas próprias imagens. O resultado foi a leilão na Inglaterra, e todo o dinheiro arrecadado foi destinado à Associação de catadores
(Fotos: Vik Muniz/Divulgação)
No Jardim Gramacho, estima-se que cerca de 15 mil pessoas vivem e sobrevivem do lixo. Hoje, cerca de três mil pessoas trabalham diretamente no aterro, e removem, todos os dias, cerca de 200 toneladas de material reciclável. Segundo o sociólogo Jorge Pinheiro, da Universidade Federal Fluminense (UFF), o lixão já não polui apenas o solo ou o ar após 30 anos recebendo oito toneladas de resíduos diariamente. A ameaça agora se expande para a Bahia de Guanabara: “A melhor imagem que se pode usar para descrever o que pode acontecer com o aterro é a de uma grande montanha de lixo sobre uma base gelatinosa – já que o solo é argiloso no local que outrora era mangue - que a qualquer momento pode desandar para dentro da Baia de Guanabara”, afirma Pinheiro, colaborador do site Lixo.com.br.
Até agora, o filme já contabilizou 23 prêmios ao redor do mundo. Esta semana, ele entrou para a cobiçada lista dos indicados ao o Oscar, o prêmio máximo do cinema mundial. A expectativa é que o documentário gere ainda mais oportunidades para os catadores de Gramacho.
Ficha técnica:
Lixo Extraordinário (Waste Land) - 2009 Produção: Brasil e Inglaterra Direção: Lucy Walker, João Jardim e Karem Harley Genêro: Documentário Duração: 99 minutos
O que é preciso saber para evitar doenças causadas pelo contato com a água contaminada
Juliana Marques
Quem aos poucos tenta retomar a rotina nas cidades atingidas por enchentes e deslizamentos precisa ter cuidado redobrado com a saúde. Estados como Rio de Janeiro, Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco já contabilizam perdas irreparáveis que abrangem elevados números de mortos, desaparecidos e desabrigados. É em meio ao caos causado pelas chuvas que surgem graves doenças transmitidas pelo contato com a água contaminada, como leptospirose, hepatite A, verminoses e diarréia.
Apenas a Região Serrana do Rio e o estado de Santa Catarina já somam cerca de 50 mil pessoas. Em abrigos, as medidas de higiene para evitar doenças como leptospirose e hepatite A devem ser redobradas.
(Foto: Agência Fiocruz)
Pesquisadores alertam que durante os alagamentos, toda a atenção com a higiene e conservação dos alimentos são necessários para evitar as enfermidades. Na Região Serrana do Rio, onde 16 cidades foram gravemente afetadas, a água dos rios, o ar e a lama estão poluídos. São bactérias, fungos e vírus que circulam entre os sobreviventes em até 120 vezes a mais que o número tolerado. Com isso, surgem também casos de conjuntivite, sinusite e rinite.
A leptospirose, uma das principais doenças causadas pelo contato ou ingestão de água e alimentos contaminados, é também uma das mais comuns em áreas urbanas e rurais. Em entrevista à Agência de Notícias Fiocruz, a pesquisadora Ilana Teruszkin Balassiano, do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), afirma que cortes e ferimentos são as principais portas de entrada para as bactérias do gênero Leptospira. “Em situações graves, como a da Região Serrana do Rio, o contágio pode ocorre mesmo sem a presença de um ferimento. Por isso, é importante tomar todas as medidas de higiene possíveis, e ingerir água mineral ou devidamente tratada, além de descartar alimentos que também tiveram contato com a enchente”, orienta.
Na filial da Cruz Vermelha, no centro do Rio de Janeiro, chegam diariamente toneladas de água potável, alimentos não perecíveis e produtos de higiene. Agora, itens de maior necessidade são meios de transporte para levar os donativos até a Região Serrana. (Foto: Vinícius Albuquerque)
A pesquisadora destaca que os sintomas iniciais da leptospirose são similares ao resfriado: febre alta, dor de cabeça e no corpo. Porém, em casos mais graves, rins e pulmões são comprometidos, fazendo com a doença leve à morte: “Se a pessoa teve contato com a água das enchentes ou com o barro de desmoronamentos e apresentar estes sintomas, deve procurar atendimento médico e relatar a situação para que receba o tratamento adequado”, explica Ilana.
Para minimizar o risco de outras graves doenças, o Ministério da Saúde divulgou algumas dicas e medidas que devem ser aplicadas antes, durante e depois dos desastres naturais:
Sempre filtre e ferva a água por três minutos antes de beber. Caso não possa fervê-la, trate-a com hipoclorito de sódio (2,5%) – 2 gotas por litro de água – deixe descansar por 15 min. Isso elimina vírus, bactérias ou parasitas que podem causar doenças.
Alimentos e embalagens já abertas que tiveram contato direto com água da enchente não devem ser consumidos. Alimentos industrializados e embalados em vidro, lata, a vácuo e em caixa tipo “longa vida”, que se encontram fechados e sem sinais de alteração, devem ter suas embalagens higienizadas com 2 colheres (sopa) de hipoclorito de sódio (2,5%) em 1 litro de água.
Portal reúne em mapa interativo informações coletadas por pesquisadores e pela sociedade civil
Juliana Marques
Como relacionar a incidência de dengue com a ocorrência de desmatamento em uma determinada região? E como prever o surgimento de doenças após fortes chuvas ou queimadas? As respostas poderão, em breve, ser consultadas no novo portal Observatório de Clima e Saúde, lançado a partir da parceria de pesquisadores da Fiocruz com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), para reunir informações meteorológicas, ambientais e epidemiológicas de todo o Brasil.
Inspirado em outros portais de monitoramento como o “Chega de Queimadas” – que monitora a ocorrência de queimadas em território brasileiro, o Observatório é uma iniciativa criada para difundir as informações sobre clima e saúde entre pesquisadores e a população de maneira mais rápida e dinâmica, com atualização em tempo real. Um dos principais destaques do projeto é sua característica colaborativa, pois o conteúdo é inserido de forma gratuita por organizações não-governamentais, instituições e qualquer cidadão interessado em divulgar dados sobre uma determinada região.
No portal do Observatório é possível checar dados de saúde e meio ambiente de acordo com a região, ano, mês e dia. Na imagem, é possível observar todos os dados computados de focos de queimadas em 2010
Por intermédio do site, é possível inserir em um mapa interativo, comentários, imagens e textos sobre ocorrências de doenças, queimadas, desmatamentos, enchentes e deslizamentos, por exemplo. De acordo com o engenheiro e especialista em geociências da Fiocruz, Christovam Barcellos, a reunião de informações colaborativas é essencial para o sucesso do projeto. “Após a inserção dos dados será possível realizar um cruzamento de resultados. Com essa análise de informações múltiplas, queremos obter respostas e promover um debate entre os usuários”, explica Barcellos, que é coordenador do Observatório, no Instituto de Comunicação e Informação Científica Tecnológica (ICICT), na Fiocruz.
O mapa da imagem exibe, de acordo com a legenda o percentual de tratamento da água em estados brasileiros: Quanto mais clara é a cor, maior é o índice de municípios que possuem água tratada
Por isso, Barcellos conta com uma equipe formada por especialistas em áreas como saúde pública, infectologia, meteorologia e geografia, selecionada para monitorar o conteúdo do site e checar as informações. O engenheiro espera que o Observatório possa servir como uma grande base de pesquisa com dados disponíveis para toda a população: “À medida que as informações são adicionadas, será possível obter resultados como a melhoria do sistema de saúde e a prevenção de doenças, por exemplo”. Além dos dados do mapa, os usuários podem ainda consultar textos e taxas de incidências de doenças como pneumonia e leptospirose.
Há ainda a seção “Sítios Sentinelas”, onde é possível monitorar o trabalho de cientistas em localidades afetadas regularmente por eventos extremos, como por exemplo, o Rio Grande do Sul - que é atingido por secas e fortes chuvas; e a Amazônia, que todos os anos registra inúmeras enfermidades e queimadas.
Barcellos coordena ainda o Atlas Água Brasil, portal que reúne dados, documentos e indicadores sobre a qualidade da água em todo o país. No Atlas também é possível consultar dados relacionados à qualidade das águas brasileiras por intermédio de mapas virtuais. Uma das seções mais consultadas é o Glossário, com informações escritas de formas simples e acessíveis sobre doenças transmitidas pelo contato com águas contaminadas, especialmente após enchentes.