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10 de fev. de 2011

Potentes cata-ventos de energia

Em expansão em continentes como Ásia e América Latina, a energia eólica é uma alternativa mais limpa, renovável e barata
  
Juliana Marques

O princípio é simples e milenar. Desde a antiga Babilônia, 2 mil anos a.C., o homem já usava a força dos ventos na produção da energia cinética para moer grãos de plantações em um dispositivo simples, hoje semelhante aos famosos moinhos. Mas foi a partir do século XX, por volta da década de 1970, e em meio a crises mundiais do petróleo que a tecnologia começou a evoluir. Foi o aumento dos preços da energia de origem fóssil que levou ao investimento em tecnologias inovadoras para geração de eletricidade a partir da força dos ventos.

Uma fazenda eólica no sul dos Estados Unidos, um dos maiores produtores de energia eólica do mundo. Os cata-ventos podem ser instalados em terra ou em alto mar, de acordo com a velocidade dos ventos. (Foto: Timothy Tolle)

Atualmente, a energia eólica tem conquistado países em todo o mundo, mas poucos ainda apostam no potencial de cada região. Em 2010, no entanto, o crescimento no setor foi de 22,5% e a produção de energia elétrica alcançou novos territórios como China e Chile, que planeja construir ainda este ano 20 novos parques eólicos.  De acordo com o relatório anual da Associação Mundial de Energia Eólica (World Wind Energy Association, em inglês), o recurso já é capaz de abastecer cidades inteiras, especialmente nos Estados Unidos e na Europa. Em 2009, os cata-ventos gigantes de todo o mundo contabilizaram 340 Terawatts-hora – o suficiente para gerar eletricidade a toda Itália durante um ano.

Depois da Europa e Estados Unidos, a Ásia e a América Latina mostram que a força dos ventos pode impulsionar a geração de uma energia menos agressiva ao meio ambiente. Ano passado, a China foi a principal protagonista dos investimentos deste setor, e alcançou até mesmo pequenos vilarejos no interior do país por intermédio de microparques eólicos, levando luz a milhares que vivem sem energia.

No Brasil, apesar do elevado potencial proporcionado pelos ventos da região litorânea, ainda existem poucos cata-ventos produzindo eletricidade. Aqui, a principal fonte de energia ainda é a hidrelétrica, mas seus danos ao meio ambiente são preocupantes. As usinas geram energia e ao mesmo tempo destroem a biodiversidade, causam danos irreversíveis em áreas florestais e são responsáveis pela remoção de centenas de comunidades, especialmente tribos indígenas. Elas serão, por exemplo, as mais afetadas caso a usina de Belo Monte seja construída no Pará. A polêmica em torno da hidrelétrica já dura mais de 20 anos, e por isso, não faltam motivos para incentivar fontes mais limpas e eficientes, como energia solar, eólica, das marés e biogás.

Atualmente, alguns dos principais parques de energia eólica estão localizados no litoral Nordeste do país, especialmente em estados como Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Sul. Este mês, a cidade do Rio de Janeiro recebeu o Congresso de Energia Eólica da América Latina, um evento que reuniu pesquisadores, empresários, engenheiros e órgãos governamentais para debaterem e compartilhar novas estratégias para os investimentos necessários à multiplicação dos cata-ventos em todo o continente latino.

O potencial do Brasil: apesar de fortes ventos atingirem grande parte do Brasil, ainda são poucos os investimentos no setor. Em Fernando de Noranha, apenas uma turbina é responsável pela geração de energia para toda a ilha. No mapa, as áreas mais claras mostram onde os ventos são  mais velozes.  (Imagem: Agência Nacional de Energia Elétrica  - ANEEL)


A meta é impulsionar a alternativa para que tecnologias nacionais sejam desenvolvidas e valorizadas. De acordo com Stefan Gsänger, secretário geral da Associação Mundial de Energia Eólica, a principal dificuldade não é instalar as turbinas e hélices, mas desenvolver toda a infraestrutura que compõe o parque eólico: “A energia precisa ser canalizada de alguma forma. Falta de recursos e tecnologias são alguns entraves enfrentados por países subdesenvolvidos e em desenvolvimento”, afirma. O secretário explica ainda que após mover as hélices dos cata-ventos, a energia passa por um gerador que produz a eletricidade. É necessário ter um equipamento computadorizado para adequar as pás à direção e velocidade do vento. Em seguida, a energia é transmitida para uma central que distribui a eletricidade para vilas, cidades e estados.

O poder do vento pelo mundo em 2010:
(De acordo com a Associação Internacional de Energia Eólica)

1 - Estados Unidos - 36 mil MW (megawatts)
2 - China – 33 mil MW
3 - Alemanha – 24 mil MW
4 - Espanha – 19 mil MW
5 - Índia – 12 mil MW

Mais esforços no combate a virus

Investimentos em vacinas, controle de transmissores e conscientização da população são algumas das mais importantes medidas para prevenir doenças virais

Juliana Marques

A dengue e a poliomielite são doenças graves, causadas por vírus diferentes, mas que precisam de cuidados especiais e medidas urgentes de prevenção em diversas regiões. Enquanto grande parte do mundo já erradicou a poliomielite, também conhecida como paralisia infantil, nações do Oriente Médio e da África ainda enfrentam desafios para prevenir a enfermidade e fornecer vacinas para a população, especialmente crianças menores de cinco anos.

Graças às doses das vacinas Sabin e Salk, a poliomielite já foi erradicada em quase todos os países do mundo. Atualmente a Organização Mundial da Saúde (OMS) trabalha em parceria com fundações e organizações não-governamentais para levar vacinas à crianças em áreas ainda endêmicas. (Foto: OMS)

A dengue, ao contrário, possui um quadro ainda mais alarmante. Com a inexistência de vacinas e tratamentos específicos, a doença atinge cerca de 50 milhões de pessoas anualmente, sendo que 2,5 bilhões vivem em áreas de risco, em mais de 100 países em todo o mundo. E a cada ano, o aumento da temperatura média global agiliza a proliferação de mosquitos, que passam a transmitir com mais rapidez quatro tipos diferentes do vírus da dengue, o arbovírus.

No Brasil, a pólio foi erradicada no início da década de 90, após grandes epidemias entre os anos de 1970 e 1973. Em 1980 o país iniciou, por intermédio do Sistema Único de Saúde (SUS), uma campanha nacional de vacinação infantil, reduzindo até 50% dos casos em apenas um ano. Atualmente, a doença ainda é foco de grandes campanhas para que especialistas continuem monitorando uma possível reintrodução do polivírus na população.

Vulneráveis, as crianças são as mais propensas a contrariar a pólio. Além dos sintomas mais comuns, como febre, dor de cabeça, diarreia e vômito, a doença pode subitamente causar danos no sistema nervoso, levar à paralisia muscular e causar a morte. Em países ainda endêmicos, como Índia, Nigéria, Afeganistão e Paquistão, a ausência de saneamento básico e de políticas de incentivo à programas de vacinação são algumas das facilidades encontradas para disseminação do vírus, que sobrevive em fezes,  água, alimentos e utensílios contaminados. Apesar disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS), fundações e a iniciativa privada têm tentado reverter o quadro. A cada ano, os países mais afetados chegam a receber um bilhão de dólares em vacinas e assistências.

Prevenir é controlar o vetor

Todos os anos, durante o verão, as temperaturas aumentam e os mosquitos se multiplicam. Para evitar a transmissão da dengue e novas epidemias no país, o Ministério da Saúde lançou este ano uma nova campanha de conscientização, com informações sobre mobilização, prevenção e sintomas, traduzidas para diferentes públicos, como profissionais de saúde, educadores e crianças.

O mosquito Aedes aegypti, é um dos principais responsáveis pela transmissão da doença. Para evitar sua proliferação, não deixe água parada em vasos de plantas, pneus, calhas, garrafas, e verifique a vedação da caixa d’água. (Foto: Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Wikimedia Commons)

Os maiores o vilões são os vetores, os mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus, conhecidos pelo corpo preto coberto com traços brancos. Eles vivem em locais com temperaturas elevadas, desovam suas larvas em água parada e carregam o vírus, transmitindo-o ao homem por intermédio da picada. Apesar de ainda não existir uma vacina para os quatro tipos de arbovírus de dengue existentes, pesquisadores na Austrália já estudam formas de tornar os mosquitos resistentes ao vírus.

Conheça as principais características dos mosquitos transmissores da dengue no vídeo:
Aedes aegypti e Aedes albopictus – Uma Ameaça aos Trópicos
Direção: Genilton Vieira



Dengue

Poliomielite (paralisia infantil)
Vírus:
Arbovírus, pertencentem à família de flavivírus. Existem 4 tipos diferentes, sendo o DEN-1 o maior causador de epidemias.
Poliovírus, formado por uma cadeia simples de RNA do gênero Enterovírus. Possui três sorotipos diferentes.

Transmissão:
Picada das fêmeas dos mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus.
Contato com fezes, água, alimentos e utensílios contaminados. O vírus se multiplica no intestino. 

Sintomas:
Febre, dor de cabeça, dores musculares e articulares. Erupções na pele, vômitos, diarreia, tonturas e hemorragias (em casos mais graves, na dengue hemorrágica).

Febre, dores no corpo, dor de cabeça e vômito. Paralisação muscular, em casos mais graves.
Áreas endêmicas:
Mais de 100 países em todo o mundo, especialmente locais com temperaturas acima de 30°C.

Índia, países da África e Oriente Médio.

Tratamento:
Após consultar um médico- Repouso, ingestão de líquidos e medicamentos prescritos para febre e dores de cabeça.

Não há tratamento especifico, apenas cuidados com os principais sintomas.
Prevenção:
Não deixar água parada: limpe calhas, cubra caixa d’água e mantenha sacos de lixo bem fechados, e longe de animais.
A melhor maneira é por intermédio das doses das vacinas Sabin e Salk, em crianças menores de cinco anos.

Incompreendidos e essenciais

Programa das Nações Unidas destaca a importância dos morcegos, fundamentais para o controle de pragas e dispersão de sementes

Juliana Marques

Pesticidas, desmatamento e mitos que envolvem o imaginário popular têm causado graves problemas aos morcegos. Conhecidos especialmente por seus hábitos noturnos e hematófagos, estes mamíferos voadores assustam quem desconhece o papel deles no equilíbrio da natureza e da biodiversidade. Adorados em alguns países, mas temidos em outros, os morcegos possuem cerca de 1.100 espécies espalhadas pelo mundo, sendo que metade delas está ameaçada de extinção. Sim, eles saem à noite para se alimentar, mas estão longe de serem vampiros.


Morcego da espécie Tadarida brasiliensis, encontrado em todo território americano, especialmente no Brasil. Anualmente, suas colônias são capazes de ingerir até 18 toneladas de insetos. (Foto: Ron Groves)

Para estimular o conhecimento a respeito destes animais – pertencentes à ordem quiróptera – o Programa para o Ambiente das Nações Unidas (Unep), decidiu escolher 2011 como o ano do morcego. O objetivo é promover a conservação, pesquisas e a educação para ressaltar a importância das espécies ao meio ambiente. Como a grande maioria dos morcegos come frutos, néctar e insetos, eles se tornam animais indispensáveis no controle de pragas, polinização, e dispersão das sementes.  Para se ter uma ideia deste equilíbrio, basta tomar como exemplo os morcegos insetívoros: alguns deles conseguem ingerir mais de três mil insetos em apenas uma refeição.

Segundo os especialistas em quirópteros, os morcegos só são perigosos quando transmitem raiva, mas a doença se manifesta apenas em espécies hematófagas. “Os morcegos raramente atacam humanos. Mas na América Latina, em especial, milhares de animais são mortos por puro preconceito. As pessoas não apenas o dizimam como também destroem seus refúgios”, afirma o médico Merlin D. Tuttle, embaixador de honra da campanha e fundador da Conservação Internacional de Morcegos.

As três espécies de morcegos “vampiros” conhecidas: Da esquerda para a direita, Diphylla ecaudata, Diaemus youngii e Desmodus rotundus. O biólogo Wilson Uieda já entrevistou 607 famílias no interior da floresta amazônica e verificou que 42% delas já sofreu ataques de morcegos. (Foto: Wilson Uieda)

De fato, portanto, existem morcegos que se alimentam de sangue de outros animais. A boa notícia é que há no planeta apenas três espécies de morcegos “vampiros”. A má, é que todas as três estão restritas à América Latina, e são as maiores responsáveis pela transmissão de raiva entre seres humanos. Mas não há motivo para pânico. De acordo com o biólogo Wilson Uieda, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), os ataques a humanos só acontecem quando há mudanças drásticas no ambiente em que os morcegos vivem: “Na ausência de presas selvagens, os morcegos hematófagos ferem cães, cavalos, galinhas e seres humanos. Constatei também que é comum, por exemplo, encontrar casos de raiva em comunidades indígenas que recebem terras do governo. Eles deixam de ser nômades, vivem sempre em um mesmo lugar e viram presas fáceis para os morcegos”, explica Uieda, um dos maiores especialistas do país em quirópteros.

No Brasil, e outros países como o Reino Unido, morcegos e suas moradias estão sob a Lei de Proteção à Fauna. Portanto, capturar, machucar, matar morcegos ou até mesmo destruir suas moradias é crime. No Reino Unido, inclusive, há biólogos e especialistas de plantão para resgatá-los em caso de incidentes com seres humanos. E enquanto nas Américas os morcegos causam arrepios, na China são considerados símbolos de felicidade e riqueza. Já na Escócia, um imóvel é valorizado quando passa a ser habitado pelos mamíferos voadores.

Ao todo, existem 138 espécies espalhadas pelo país. Aqui, as espécies hematófagas são encontradas especialmente na região norte, em vilarejos no interior do Amazonas e do Pará, onde animais domésticos passam a ser comuns. As espécies Diphylla ecaudata e Diaemus youngii alimentam-se apenas de sangue de aves, enquanto a Desmodus rotundus tem preferência por qualquer mamífero indefesos com um sono profundo.

Algumas curiosidades sobre os morcegos:

  • Incluindo os hematófagos, existem ao todo seis subordens de morcegos: 
          - morcegos-raposas, em sua maioria insetívoros;
          - morcegos-pescadores, que usam seus dedos dos pés e unhas longas para
            capturar insetos e pequenos peixes sob a água;
          - morcegos carnívoros, se alimentam especialmente de roedores e rãs;
          - morcegos nectarivos,  têm preferência por certas espécies de flores;
          - morcegos frugívoros, se alimentam de frutos maduros.

  • Ao contrário do que muitos pensam, os morcegos têm ótima visão, adaptada a ambientes com pouca luminosidade. Algumas espécies chegam a enxergar 10 vezes melhor que seres humanos. Além disso, eles contam com a ecolocalização, um tipo de sonar que detecta a distância dos objetos, tamanho, velocidade e até mesmo a textura por meio de ondas sonoras!
  • As espécies hematófagas possuem curiosidades à parte: Alguns morcegos chegam a  ter uma longevidade de até 30 anos. Depois de darem à luz, as fêmeas passam um ano cuidando do filhote: amamentando e fazendo higiene corporal.
  • Não é fácil para um mamífero acordar no meio da noite e perceber que há um morcego se alimentando com seu sangue. A mordida é pequena, os dentes não perfuram e eles liberam pela saliva um anticoagulante especial. A substância já está sendo estudada em laboratórios norte-americanos para o tratamento de pessoas que sofreram derrames. 
  • Nos Estados Unidos, produtores agrícolas estão investindo nos morcegos para plantarem alimentos orgânicos: Os morcegos agem no controle da população de insetos e os agricultores abandonam o uso de pesticidas.
  • Para evitar visitas indesejadas de morcegos em sua casa, cubra aberturas e frestas de concreto, madeira ou tijolo e verifique telhas soltas. Ainda que a abertura seja pequena, morcegos de tamanhos menores podem se abrigar. Em paredes feitas de pedras, onde os espaços são maiores, a passagem fica ainda mais simples, já que os morcegos se instalam em locais seguros, escuros e úmidos. Instale telas ou mantenha portas e janelas fechadas, especialmente durante a noite.

Saiba  mais sobre o estudo de morcegos no Brasil:
http://www.sbeq.org/