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6 de abr. de 2011

Inspiração para a carreira

Um dos vencedores da 1ª edição da Olimpíada, o engenheiro agrônomo Victor Ortega conta como a participação no projeto influenciou a escolha da profissão

Juliana Marques

Um dos destaques da 1ª Olimpíada de Saúde e Meio Ambiente, o Projeto Cambucás da Escola Euclides da Cunha, no Catagalo, Rio de Janeiro rendeu mais que bons frutos para o meio ambiente. Além de convocar estudantes para a preservação da reserva, o trabalho incentivou os jovens a seguirem carreiras em áreas como Biologia e Engenharia Agrícola e Ambiental.

Um desses estudantes foi Victor Ortega Medeiros Zanon da Silva – hoje engenheiro agrônomo na Fiocruz. Premiado em 2003, Victor participou do projeto quando estava no 1º ano do ensino médio e logo descobriu que tinha vocação para ir além do trabalho escolar: “No Projeto Cambucás tive a oportunidade de fazer coleta de solo, identificar plantas e plantar espécies nativas, preservar de recursos hídricos e criar campanhas de conscientização. Isso tudo me deu uma boa base para encontrar a carreira certa”, relembrou Victor.

O jovem gostou tanto do projeto que participou de todas as etapas e ia ao parque mesmo quando não estava no horário escolar: “Depois que o projeto foi premiado pela Olimpíada e eu conheci a Fiocruz, comecei a pesquisar carreiras relacionadas com tudo que aprendi e pude ver de perto. Foi aí que descobri o curso de engenharia agronômica. E quando entrei na faculdade coloquei como meta conseguir um emprego na Fundação”.


Victor é o responsável por uma equipe de 200 pessoas na Fiocruz
(Foto: Juliana Marques)

E foi como Victor sonhou. Após a conclusão do curso no ano passado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) surgiu uma oportunidade de trabalho na Diretoria de Administração do Campus (DIRAC), na Fiocruz em Manguinhos. Hoje, com 25 anos, o jovem já coordena uma equipe de 200 pessoas que atuam em todos os campi da Fiocruz espalhados no Rio de Janeiro. “Trabalho com o manejo de solos, mudas e compostagem para realizar a manutenção todas as áreas verdes da instituição e atender projetos de paisagismo da maneira mais sustentável possível. Todo resíduo da jardinagem, por exemplo, é utilizado posteriormente como adubo”, explica o engenheiro.

O Projeto Cambucás existe desde 2001 na Escola Euclides da Cunha, que até hoje mobiliza professores e alunos para atividades de preservação da região do Cantagalo, município localizado no interior do Rio de Janeiro. O colégio iniciou o projeto para chamar a atenção dos alunos sobre a importância da educação ambiental e promover uma campanha de preservação da Reservas dos Cambucás na região. O local possui ampla importância hídrica e já foi foco do mosquito Aedes albopictus, um dos transmissores da febre amarela.

Segundo Victor, o curso de engenharia agrícola e ambiental é bastante amplo: há disciplinas do ciclo básico, como cálculo, física, técnicas computacionais e química; como também matérias específicas da área: botânica, zootecnia, ecologia, estudo dos solos, técnicas agrícolas e irrigação. Disciplinas de direito, marketing e administração também estão incluídas na grade. Formados nesta área podem trabalhar tanto com plantas como animais.

Com demandas de aumento da produtividade agrícola e a chegada de novas tecnologias no Brasil, profissão está hoje em destaque no mercado de trabalho. Pode-se trabalhar com controle de pragas, fitotecnia (jardinagem e paisagismo), floricultura, fitopatologia (estudo das doenças das plantas), manejo de solos, entre outras coisas. “Indico a faculdade de agronomia para todos que querem trabalhar com meio ambiente. A faculdade oferece um leque amplo, e posteriormente é possível se especializar em diversas áreas, com inúmeras possibilidades de emprego em todo o Brasil”, recomendou Victor.

Assista ao vídeo do Projeto Cambucás, produzido anualmente por alunos do Ensino Médio da Escola Euclides da Cunha: http://videolog.tv/video?258306

Como serão os museus do futuro?

Pesquisador conta como casas de ciência enfrentam o desafio de levar conhecimento à juventude contemporânea

Juliana Marques
   
Repletos de objetos antigos e meticulosamente catalogados, museus e casas de ciências representam a evolução do conhecimento nas mais diferentes sociedades. É claro que os museus sempre terão espaço para a história, mas uma nova geração de jovens do mundo inteiro está levando pesquisadores a buscarem novos instrumentos interativos e colaborativos para aproximar a juventude do conhecimento e da educação.

Quem defende a ideia é o pesquisador mexicano e criador de programas educativos para museus Ricardo Rubiales Jurado - hoje um dos curadores do Papelote, Museu da Criança, na Cidade do México. Rubiales apresentou diversas inovações no 1º Encontro da Associação Brasileira de Centros e Museus de Ciência (ABCMC), que aconteceu entre 29 de março e 1º de abril no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro.

Um dos exemplos de interatividade no Museu de Artes e Ciências, em Connecticut, nos Estados Unidos. A descoberta começa on-line antes do visitante ir ao museu, e ao chegar lá ele aprende sobre abalos sísmicos em tempo real na internet e pode registrar suas próprias experiências.
(Foto: Louise Palmer/IRIS Consortium)

O pesquisador mostrou como o conflito de gerações está afastando os jovens dos museus, e ao mesmo tempo desafiando museólogos e educadores. “A geração Y estabelece novas formas de comunicação em contextos e momentos sociais distintos, mas globais. A juventude não quer apenas aprender, mas fazer parte do aprendizado e colaborar com ele”, explicou.

Novo olhar colaborativo

Para atender aos anseios dos jovens do século XXI, Rubiales defende a democratização digital do conhecimento: “O museu deve ser um território a ser explorados por crianças, jovens, e até mesmo adultos. Um novo conceito de museus deve ser baseado no construtivismo, ou seja, apoiado na socialização e no diálogo. E neste contexto, a internet e equipamentos eletrônicos têm uma participação essencial nos processos educacionais”, contou o pesquisador, que desde 1994 desenvolve projetos para crianças relacionados à arte contemporânea.

Rubiales defende que as mudanças são necessárias para que os jovens sejam capazes de refletir sobre temas mais cada vez mais complexos, relacionados especialmente a contextos políticos e socioeconômicos da atualidade. “Participação é diferente de interatividade. Participar é responder, colaborar. E os museus devem ser um espaço para os jovens trabalharem juntos e dialogarem entre si. Os visitantes são coautores, e a experiência começa quando alguém inicia a participação”, esclarece.

Conheça o trabalho e os projetos de Ricardo Rubiales (em espanhol)
http://www.educacionenmuseos.com
   
Como serão os museus do futuro? Conheça a ONG Australiana Museum3 e saiba em especialistas de todo o mundo estão investindo para mudar os conceitos de museus e centros de ciência. (em inglês)
http://museum3.org/

Nossa história ambiental

O historiador José Augusto Pádua explica o surgimento da proteção ambiental no Brasil e conta o que professores podem fazer para multiplicar atitudes em prol da natureza
   
Juliana Marques


Pádua é autor de diversas obras, entre elas Um sopro de destruição, que mostra a preocupação com o meio ambiente do Brasil desde o período colonial
(Foto: Juliana Marques)
Doutor em Ciência Política, professor adjunto de História do Brasil na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor de diversos livros e artigos sobre a história do ambientalismo brasileiro, José Augusto Pádua já militou pelas causas ambientais e viu de perto conflitos madeireiros na Amazônia. Nesta entrevista ao Boletim da Olimpíada ele conta como surgiu seu interesse pelo tema e destaca as primeiras personalidades brasileiras que chamaram a atenção para a degradação ambiental no país. Além disso, Pádua mostra como conscientização e cidadania podem começar nas escolas.

Como surgiu seu interesse em pesquisas na área de história do ambientalismo?
Pádua: Meu interesse começou por volta da década de 70, quando a sociedade estava em efervescência, mais ainda em plena ditadura militar. As pessoas começavam a buscar caminhos e alternativas de organização e cidadania, por isso, inicialmente me interessei como cidadão, mas logo enveredei pelo campo da história ambiental. Este passou a ser meu campo de estudo acadêmico, pois eu queria abrir um novo horizonte em relação à ecologia. A preocupação ambiental teve uma relação direta com o processo de crescimento econômico do Brasil, já que naquela época não existiam legislações e órgãos públicos voltados para a preservação. O que se via era simplesmente a poluição da água, do ar, destruição de áreas verdes e ecossistemas para a urbanização sem nenhuma fiscalização.

Conte-nos como surgiu o material para sua pesquisa que resultou no livro “Um sopro de destruição: pensamento político e crítica ambiental no Brasil escravista (1786 – 1888)”. Quais foram as primeiras ideias ambientalistas do período colonial?
Pádua: Desde século XIX até o final do século XX, o Brasil teve personalidades muito marcantes e preocupados com o meio ambiente. Eu encontrei cerca de 50 autores que já abordavam estas questões com bastante seriedade. Entre eles, Euclides da Cunha, Joaquim Nabuco, Alberto Torres e José Bonifácio de Andrada e Silva, que foi especialmente brilhante e criativo. Há um documento escrito por ele para a Assembleia Legislativa que data 1823 e merece destaque. Ele não só pedia o fim do tráfico de escravos, mas escrevia de forma quase apocalíptica, dizendo que nossas florestas estavam sendo destruídas e isso, com o tempo, já reduziria chuvas e umidade: “Nosso belo Brasil ficará reduzido aos áridos desertos da Líbia... E chegará esse dia, dia temível e fatal em que a ultrajada natureza se ache vingada de tantos crimes e erros cometidos,” ele afirmou no documento.
   
Um ponto de vista bastante atual então?
Pádua: Sim, e uma percepção forte. Eles não tinham ainda os conceitos que hoje existem do ambientalismo, mas estavam preocupados com o país. Apontavam o analfabetismo e a escravidão como principais inimigos da natureza, já que as formas rudimentares de trabalho impediam o desenvolvimento. Eles já estavam preocupados com a destruição dos recursos naturais, erosão do solo, redução da água e perda de espécies. 

E após o período colonial? Outros personagens também se destacaram?
Pádua: Já no século XX aponto Euclides da Cunha, autor da obra “Os Sertões”, que entre outras coisas era escritor e sociólogo. Ele dizia que os fazendeiros eram “fazedores de desertos” por conta do intenso processo de desmatamento. Estava claro que os intelectuais já passavam a compreender que o território e a natureza eram muito importantes para a formação de um país como o Brasil.

E quando a sociedade passou a participar de maneira efetiva dos movimentos ambientais?
Pádua: Foi justamente a partir da década de 70, quando a opinião pública começou a se manifestar. Alguns grupos se formaram e destaco duas frentes: a da classe média, preocupada com questões locais e globais - como poluição dos rios e do ar - e também com “ecologia popular”, voltada para problemas sociais mais locais. Nesta ecologia popular destaco o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu no norte do país, assim como o assassinato de Chico Mendes, em 1988.

Mas como então transportar esta preocupação a outros membros da sociedade, em especial professores e alunos?
Pádua: Eu percebo que muitas mudanças já são observadas. É importante começar desde cedo, na educação básica, com o objetivo de tornar o tema parte da cidadania. Os professores de Ciências, História e Geografia podem trabalhar facilmente com a perspectiva histórica. Muitas vezes os conceitos abordados em sala ficam abstratos, mas uma observação da paisagem em que os alunos vivem podem facilitar a conscientização. A partir de perguntas e pesquisas como: Como era este bairro há 20, 30 anos atrás? O que mudou? O que piorou? Há lixo, houve desmatamento, como houve esta degradação? é possível visualizar as transformações no local onde vivemos e a consciência se torna natural. O debate sobre a ecologia abre discussões para temas como a disseminação de epidemias, chegada de doenças, entre outros. É importante levar em conta a responsabilidade histórica que obtemos com a constituição do nosso extraordinário território, desde recursos hídricos às nossas florestas e biodiversidade. 
   
Neste caso, o nosso maior desafio ainda é preservar os recursos naturais?
Pádua: Evidentemente. Devemos encontrar uma síntese inteligente para usar as riquezas de forma democrática com sustentabilidade e em prol do desenvolvimento humano. É importante destacar as vitórias do ambientalismo no Brasil, cujos efeitos repercutem na sociedade. Por exemplo: nos últimos nove anos houve uma redução em 80% no desmatamento da Amazônia - isso graças a novas políticas de crimes ambientais e novas posições de vários setores da sociedade - além de inovações tecnológicas. Devemos ter, portanto, atividades econômicas cuidadosas que usem a terra e ao mesmo tempo preservem recursos de maneira racional. Não devemos apenas discutir questões ambientais, mas saber o motivo da discussão em um contexto histórico. E além de aprendermos com o passado, devemos vislumbrar soluções para o futuro com uma visão ampla de nação e cidadania. A preservação deve ser “multisetorial” e pode começar em casa, no trabalho, no bairro e assim por diante.