20 de abr de 2011

O perigo servido à mesa

Campeão mundial no consumo de agrotóxicos, Brasil lança campanha para reduzir contaminação

Juliana Marques

Eles saem direto das plantações e vão para os nossos pratos, junto com os alimentos. Em média, os brasileiros consomem 5,2 litros de agrotóxicos por ano e seus danos não atingem somente nossa saúde: as intoxicações alcançam com facilidade os solos, chegam aos lençóis freáticos e ainda poluem o ar. Enquanto países em todo mundo propõem novas metas e alternativas mais sustentáveis para reduzir o uso de produtos químicos nocivos na agricultura, o Brasil consome cerca de 700 milhões de litros de agrotóxicos anualmente. Tudo isso para abastecer gigantescas safras de soja, milho e algodão.

O governo federal criou, portanto, uma campanha permanente em parceria com outras 20 instituições para reduzir o uso de agrotóxicos nas plantações e mobilizar a população para produzir - e consumir - alimentos saudáveis. Os agrotóxicos podem causar dois efeitos diferentes no corpo humano: agudos e crônicos. Em geral, os efeitos agudos são causados especialmente em agricultores que se contaminam diretamente com o manejo inapropriado das substâncias. Distúrbios nervosos e estomacais, tonteiras, desmaios dores de cabeça e até mesmo ataques cardíacos e falência pulmonar são algumas das consequências. Já os efeitos crônicos decorrem especialmente da alimentação, e são cumulativos, podendo causar comprometimento do sistema imunológico, problemas endócrinos e até mesmo câncer.

Especialistas afirmam que o uso de pesticidas e herbicidas em plantações não passam por monitoramento no Brasil. Em 2009, apenas o  estado do Mato Grosso foi responsável pelo consumo de 105 mil litros de produtos tóxicos
(Foto: Charles O'Rear)


Em entrevista à Agência Fiocruz de Notícias, a pesquisadora Lia Giraldo, do Departamento de Saúde Coletiva do Laboratório Saúde, Ambiente e Trabalho da Fiocruz Pernambuco afirma que a toxicidade dos agrotóxicos aumentou em função das resistências das pragas: “No Brasil não existe um monitoramento adequado do uso dos agrotóxicos. A natureza reage, as pragas se tornam mais resistentes e as empresas são obrigadas a produzir novas moléculas para os agrotóxicos serem efetivos. A quantidade do uso também aumenta, e com isso, as nossas estruturas biológicas também são alteradas”.

Nas duas últimas edições da Olimpíada, o perigo dos agrotóxicos serviu de tema a três trabalhos que conquistaram não apenas suas regionais, mas levaram também o Destaque Nacional, sendo um deles uma Menção Honrosa. No trabalho Agrotóxicos: benefícios ou malefícios?, premiado na 4ª Olimpíada, alunos do Ensino Médio da Escola Estadual Poeta José Raulino Sampaio, em Petrolina, Pernambuco elaboraram um Projeto de Ciências com o objetivo de conscientizar os alunos sobre o uso inadequado dos agrotóxicos nas lavouras.

E na 5ª Olimpíada, a animação Bum dos Agrotóxicos, feita por alunos do Ensino Médio da Escola Estadual de Educação Profissional Avelino Magalhães, em Tabuleiro do Norte, Ceará, ganhou reconhecimento merecido ao retratar consequências em agricultores que não realizam o plantio de forma sustentável. Já o trabalho Agrotóxico x Agro-tóxico, premiado na categoria Projeto de Ciências, narra a experiência dos alunos do Ensino Médio, da Escola estadual Professora Zama Maciel, em Pato de Minas, Minas Gerais, ao cultivarem alimentos orgânicos, ou seja, livres de compostos químicos.

Estudantes elaboram o projeto que foi um dos Destaques da 4ª Olimpíada: Agrotóxicos: benefícios ou malefícios? Eles realizaram uma pesquisa com agricultores em Pernambuco e mostraram que cerca de 30% dos entrevistados apresentavam sintomas da contaminação, tais como náuseas e dores de cabeça (Foto: E.E. Poeta José Raulino Sampaio)