26 de jan de 2011

Arte e vida que emergem do lixo

Documentário “Lixo Extraordinário” mostra como catadores transformam seu trabalho em obra de arte

Juliana Marques

No cartaz do filme, a imagem feita com material reciclado coletado pelo próprio Sebastião Carlos dos Santos, o Tião, que trabalha no lixão desde os 11 anos de idade
 (Foto: Vik Muniz)
Foram três anos de filmagens, três diretores diferentes, no Jardim Gramacho - maior lixão da América Latina - em Duque de Caxias, Rio de Janeiro. O cenário, que já foi exibido no documentário “Estamira” (2005), ganha nova vida no filme “Lixo Extraordinário”, que retrata o trabalho do artista brasileiro Vik Muniz, radicado nos Estados Unidos.

Com a ideia inicial de fotografar e pintar catadores de lixo, Muniz viu que algo muito maior poderia surgir após suas primeiras entrevistas e experiências em Gramacho. “A beleza do lixo está em ele ser tão negativo. É algo que descartamos, não utilizamos mais e não queremos mais ver por perto. No entanto, o interessante de se trabalhar artisticamente com os resíduos é que eles passam a ser vistos novamente, sendo que com bons olhos”, explica o artista.

Sob esta perspectiva, Muniz decidiu dar um novo papel aos catadores. Foi assim que eles tiveram a chance de também serem artistas e puderam confeccionara suas próprias imagens, feitas com o lixo que retiravam de Gramacho. Ao fim, o trabalho foi  fotografado pelo artista e leiloados na Inglaterra. Toda a renda do leilão foi revertida para a Associação de Catadores do Jardim Gramacho, que agora investe em novas tecnologias para ampliar a reciclagem dos resíduos que chegam ao lixão. “O que eu mais queria era mudar a vida de um grupo de pessoas, justamente com o mesmo material que eles manuseiam diariamente, o lixo”, afirmou Muniz.

Previsto para ser inativado em 2012, o Jardim Gramacho funciona há 30 anos. Nas favelas ao seu redor, é possível encontrar os catadores que trabalham diariamente para desenterrar materiais reciclados
(Foto: Vik Muniz/Divulgação)
O principal objetivo do artista e dos diretores do filme foi retratar a vida dos catadores e mostrar como a arte pôde mudar a realidade em que vivem. Para o representante da Associação de Catadores do Aterro de Gramacho, Sebastião Carlos dos Santos, o Tião, fazer parte do filme lhe redeu novas ideias e oportunidades: “O documentário abre portas para políticas públicas de incentivo à reciclagem. O Brasil tem, e muita, mão de obra capacitada para reciclar o lixo, mas faltam muitos incentivos a nível municipal. No filme, o trabalho dos catadores é valorizado e isso muda pontos de vista sociais, políticos e econômicos”, conta Tião, um dos principais personagens do documentário.

A partir da fotografia, Vik Muniz orientou os catadores a reproduzirem suas próprias imagens. O resultado foi a leilão na Inglaterra, e todo o dinheiro arrecadado foi destinado à Associação de catadores
(Fotos: Vik Muniz/Divulgação)
No Jardim Gramacho, estima-se que cerca de 15 mil pessoas vivem e sobrevivem do lixo. Hoje, cerca de três mil pessoas trabalham diretamente no aterro, e removem, todos os dias, cerca de 200 toneladas de material reciclável. Segundo o sociólogo Jorge Pinheiro, da Universidade Federal Fluminense (UFF), o lixão já não polui apenas o solo ou o ar após 30 anos recebendo oito toneladas de resíduos diariamente. A ameaça agora se expande para a Bahia de Guanabara: “A melhor imagem que se pode usar para descrever o que pode acontecer com o aterro é a de uma grande montanha de lixo sobre uma base gelatinosa – já que o solo é argiloso no local que outrora era mangue - que a qualquer momento pode desandar para dentro da Baia de Guanabara”, afirma Pinheiro, colaborador do site Lixo.com.br.

Até agora, o filme já contabilizou 23 prêmios ao redor do mundo. Esta semana, ele entrou para a cobiçada lista dos indicados ao o Oscar, o prêmio máximo do cinema mundial. A expectativa é que o documentário gere ainda mais oportunidades para os catadores de Gramacho.



Ficha técnica:
Lixo Extraordinário (Waste Land) - 2009
Produção: Brasil e Inglaterra
Direção: Lucy Walker, João Jardim e Karem Harley
Genêro: Documentário
Duração: 99 minutos