26 de mai de 2011

Três décadas de luta

Um dos descobridores do vírus HIV, o médico francês Willy Rozenbaum explica como o histórico da AIDS se entrelaça com os desafios de combatê-la

Juliana Marques   

Tudo começou em 1981, com uma notícia publicada em um jornal da cidade de Los Angeles, nos Estados Unidos. Médicos da região estavam diante de uma doença misteriosa, que atingia imediatamente o sistema imunológico dos pacientes, homossexuais em sua maioria. Pouco tempo depois, especialistas em Nova Iorque observavam que a mesma doença estava fazendo outras centenas de vítimas - todas elas apresentavam baixíssimos níveis de linfócitos.

Vítimas e profissionais de saúde ainda não sabiam, mas estavam diante do HIV, o vírus da imunodeficiência humana, que ataca de forma rápida e agressiva o sistema imunológico, impedindo que o organismo se defenda das doenças. Na França, um ano depois, o médico Willy Rozenbaum estava ocupado com diversos casos clínicos diferentes quando ao examinar um paciente descobriu que algo muito grave havia afetado seus gânglios linfáticos. Ao realizar os exames, constatou que estava diante de um novo vírus ainda não conhecido pela comunidade científica na época.

O médico francês Willy Rozenbaum integrou a primeira equipe que isolou o vírus HIV, em 1983. Desde então a AIDS já matou quase 30 milhões de pessoas (Foto: Gutemberg Brito)

Rozenbaum contou como ele e sua equipe descobriram o vírus a partir da observação das infecções desenvolvidas pelos pacientes: “Desde de muito jovem me interessava por epidemologia e doenças infecciosas. A princípio, desconfiavam que a doença misteriosa tratava-se de um câncer que acometia homossexuais (já que 90% dos infectados tinham essa orientação sexual).  Porém, logo verificamos que usuários de drogas e haitianos também eram grupos de risco. Assim, o interesse pela doença aumentou em diversos países e pude participar com os virologistas Jean-Claude Chermann e Luc Montagnier do primeiro isolamento do vírus. Fizemos em laboratório as primeiras replicações do vírus e verificamos que ele era o único responsável pelo aparecimento das outras doenças que levavam à morte.”

Símbolo mundial da AIDS, o laço vermelho foi criado em 1991 por um grupo de artistas nova-iorquinos que haviam perdido amigos e familiares, vítimas da doença. Desde então, a marca tornou-se uma das maiores representações da luta contra o vírus
(Foto: Sully Pixel/CC)

Enquanto os pesquisadores se debruçavam sobre as replicações e variantes do vírus, a AIDS se espalhava pelo mundo. O desafio consistia também em descobrir as formas de contágio e o mais complicado - a cura. “A doença já estava com uma péssima reputação, especialmente por conta da ausência de informações sobre o contágio e também porque ela matava rapidamente. Desenvolviam-se drogas para combater o vírus, mas ele só se potencializava. Enquanto combatíamos um tipo, um outro mutante se fortalecia”, contou Rozenbaum.

Logo os cientistas descobriram que a transmissão acontecia por intermédio da transferência de secreções como sêmem, sangue e leite materno de uma pessoa para outra. Porém, diante de dúvidas e sem as informações corretas, muitos acreditavam no contágio pelo uso do vaso sanitário e talheres compartilhados. Até mesmo um aperto de mão de uma pessoa portadora do vírus já causava receio. “Para piorar existia um enorme preconceito, especialmente por conta dos homossexuais e usuários de drogas. Mas a AIDS só é transmitida quando há relação sexual sem o uso de preservativo e quando se compartilham seringas contaminadas. Também é comum que as próprias mães contaminem seus filhos quando dão à luz ou amamentam”, citou.

Segundo Rozenbaum, hoje já existem mais de 20 tipos de medicamentos disponíveis para combater a AIDS. As primeiras drogas que inibiam a proteína do vírus de forma efetiva só surgiram em 1996 e desde então os profissionais de saúde vêm tentando diminuir o número de medicamentos e ao mesmo tempo aumentar a sobrevida das pessoas. No entanto, ainda não há uma vacina ou cura para a efermidade, uma das mais graves em todo o mundo. “O melhor a se fazer para evitar a doença é a prevenção e investir em tratamento para todos os infectados. Devemos valorizar os direitos humanos, expandir o acesso a material esterilizado, bem como preservativos, e o mais importante: informação. Ela deve estar nas comunidades e deve ser multidisciplinar. Este é o maior desafio para a redução do número de portadores do vírus no mundo”, afirmou o médico.

Saiba mais

Departamento de DST – AIDS e Hepatites Virais do Governo Federal

AIDS - Glossário Fiocruz de doenças